Quem faz cinema,
faz história.
Junte-se a nós

Eu Prefiro a Presença | acerca do cineclubismo em Santa Catarina

 




    Vamos ser honestos sobre os nossos domingos. A cena é clássica: o controle remoto na mão e um catálogo enorme de streaming. Passamos longos minutos rolando a tela, paralisados pela escolha, para acabar assistindo ao bom e velho “filme de conforto”, muitas vezes de forma solitária e automática. É confortável, sem dúvida. Mas o cinema, em sua gênese, é uma arte coletiva. Ele nasceu como evento, como um pretexto para o encontro, não apenas com a sétima arte em si, mas com outras pessoas.

    Aqui em Santa Catarina, o ato de assistir filmes coletivamente permanece vivo, desafiando a lógica do consumo individual. Mas por que insistimos nisso? A resposta exige uma viagem pela nossa história e, até mesmo, pela nossa vizinhança.

    Engana-se quem vê o cineclube apenas como exibição gratuita. Como aponta a pesquisadora Juliana Oliveira, historicamente, esses espaços surgem para preencher as lacunas deixadas pelo mercado. Onde o circuito comercial não alcança, o cineclube atua como um canal de circulação de filmes que propõem reflexão estética e política, além de dar espaço e tempo de tela para obras que não tiveram tanto espaço nas grandes redes de cinema. 

    Se voltarmos aos anos 40 e 50, veremos que isso já pulsava aqui. O Grupo Sul, em Florianópolis, e iniciativas como o Cineclube Biguassú, na região metropolitana, não usavam o projetor apenas para lazer. Eles buscavam um diálogo com a modernidade. A tela servia como um espelho para pensar a identidade catarinense em sintonia com o mundo. Diferente da lógica atual dos algoritmos, estes cineclubes funcionavam como um convite à descoberta, apresentando obras que ampliaram o repertório cultural da comunidade e abriram novas janelas de percepção.

    Também notamos que a função social desses espaços é ainda mais profunda. Segundo os estudos da Dra. Gizely Cesconetto de Campos sobre o Cineclube Ó Lhó Lhó (IFSC), o cineclube pode ser definido como um lugar de pertencimento. Lá, a exibição do filme é acompanhada por “práticas de cuidado”, o acolhimento, a recepção calorosa e a construção de vínculos que transformam um grupo de desconhecidos em uma comunidade.

    Se pegarmos a estrada em direção ao Oeste, veremos que essa vitalidade se espalha pelo mapa. O Cineclube Helena, projeto de extensão do curso de Cinema e Mídias Digitais da UNOChapecó, cumpre o papel essencial de democratizar o acesso, incentivando o olhar crítico, especialmente sobre as produções brasileiras. Paralelamente, o Cineclube Humana (realizado no Café Brasiliano, também em Chapecó) reforça o aspecto do convívio. Além de reunir pessoas para assistir e discutir, sua programação tem o mérito de valorizar o talento local, destacando cineastas da região entre Lages e Chapecó. 

    Indo para o Meio-Oeste do estado é possível encontrar mais fontes genuínas dessa vontade de partilhar o cinema. Em Joaçaba, a tradição universitária também abre as portas para a comunidade com a Noite da Pipoca, promovida pelo curso de Publicidade e Propaganda da UNOESC. O evento transforma o auditório em um ponto de encontro entre quem assiste e quem faz: ao exibir curtas-metragens de estudantes e produtores locais, o projeto incentiva o diálogo direto com os realizadores. A pipoca, distribuída gratuitamente na entrada, é o símbolo desse acolhimento, criando uma atmosfera descontraída que valoriza a produção dos alunos e prova que o cinema catarinense tem força para lotar a casa.

    Na cidade vizinha, Herval D’Oeste, o documentário "Cineminha do Seu Cid Saraiva", dirigido por Omar Dimbarre (projeto viabilizado pela Lei Aldir Blanc/PNAB), resgata uma página emocionante da nossa cultura. Nos anos 60 e 70, o ex-prefeito Alcides Saraiva, ou “Seu Cid Saraiva”, transformava a parede externa de sua casa, ao lado do antigo Bar do Fermino, em cinema. Sem cobrar ingresso, ele oferecia à comunidade a chance de ver o mundo através dos filmes de faroeste. As crianças se acomodavam no chão, em pedras ou tapetes, não pelo conforto, mas pelo fascínio da história compartilhada sob o céu estrelado. Seu Cid compreendia que o acesso à cultura é um pilar fundamental para a dignidade e a alegria de uma população.

    Essa herança de democratizar a arte e trazer vida para a cidade permanece ativa. Um exemplo simbólico ocorreu no final da tarde do dia 11 de dezembro de 2025, quando foi realizado o 1º Cine Paredão, produzido por Omar Dimbarre, em Herval d’Oeste. Projetando filmes como "O Menino e o Mundo" e o próprio documentário sobre Seu Cid nos fundos de uma agrocomercial, a iniciativa provou que a arquitetura urbana ainda pode ser usada como tela.

    A Cinemateca Catarinense celebra essas histórias porque elas reafirmam o cinema como uma arte do encontro. Seja em um auditório universitário, em um café ou na rua, o que buscamos é a presença. Precisamos da risada coletiva, do silêncio compartilhado e da oportunidade de olhar para a tela e, ao mesmo tempo, enxergar quem está ao nosso lado.


Escrito por André Boreto.


Referências Bibliográficas e Culturais:

OLIVEIRA, Juliana. Cineclubismo no Brasil: Esboço de uma história.

CAMPOS, Gizely Cesconetto de. A construção do lugar e o Cineclube Ó Lhó Lhó.

DIMBARRE, Omar. Cineminha do Seu Cid Saraiva (Documentário, Lei Aldir Blanc/PNAB).

DIMBARRE, Omar. 1º Cine Paredão (Evento cultural em Herval d’Oeste).

UNO Chapecó. Cineclube Helena.

Livraria Humana. Cineclube Humana.

UNOESC. A Noite da Pipoca.

Tecnologia do Blogger.
/

Fale Conosco

cinemateca.catarinense@gmail.com

Formulário de contato

Nome

E-mail

Mensagem

© Cinemateca Catarinense. Todos direitos reservado.